A maioria das pessoas se interessa por ações quando todo mundo está interessado. O momento de interessar-se é quando ninguém mais se interessa. Não se ganha dinheiro comprando o que é popular.”

Essa frase é do mais bem sucedido investidor do mundo, Warren Buffett. Acostume-se com este nome, pois será citado freqüentemente neste blog!

Quem diria que as ações da BM&F cairiam 50% apenas 5 meses depois do seu IPO, dia no qual as ações fecharam com incrível valorização de 22%?

Assim como os jogos de azar, as decisões na bolsa de valores são freqüentemente afetadas pela ganância humana. Grandes lucros no curto prazo são tentadores, mesmo para investidores disciplinados.

Escrevo este post pois presenciei muitas histórias de jovens que apostaram na BM&F por puro “modismo”. Isto não seria tão grave se a quantia investida não representasse grande parcela do patrimônio (ou as vezes até mais do que o patrimônio).

O que aconteceu foi que muitos apostaram dinheiro que não tinham (veja que existe uma enorme diferença entre apostar e investir). Soube de casos de jovens que se alavancaram com empréstimos de mais de R$ 20 mil.

O IPO da BM&F veio logo após o da Bovespa e Redecard, que renderam no primeiro dia nada menos do que 50% e 20% respectivamente. Tamanha foi a repercussão dessas duas “jóias” que milhares de pessoas que nunca haviam aplicado diretamente na bolsa, resolveram investir no IPO da BM&F, esperando assim uma lucratividade semelhante no curto prazo. Foram 260 mil pessoas físicas que investiram, batendo de longe o recorde de 64 mil na Bovespa. Aposto que a maioria delas não sabia que o dinheiro da oferta foi para os bolsos dos antigos donos (bancos) e não foi reinvestido na empresa (Santander, Pactual, Itaú levaram no total mais de 250 milhões de reais).

Feliz foi aquele que conseguiu ter sangue frio de vender suas ações no começo do pregão, quando as ações chegaram a bater 30% alta. Felizes foram os ex-sócios, que conseguiram lucros astronômicos. Semana a semana, os novos investidores observavam as ações da BM&F derretendo, até chegar à mínima de R$ 12,65 no dia 24 de abril – uma queda de 50% para quem resolveu comprar as ações no dia de abertura.

Mas, o que deu de errado?

Muita especulação pode ser feita sobre o que deu errado, é mais fácil analisar quando tudo já passou. Vou listar alguns fatores abaixo, para no final dar minha explicação fundamentalista.

  1. Primeira grande queda: “Crise subprime do Estados Unidos“– A grande realização (venda de ações) que a aconteceu na bolsa brasileira em Janeiro de 2008 devido a crise de crédito imobiliário derrubou o índice Ibovespa em mais de 20%. Exatamente no mesmo período, as ações da BM&F cairam 40%. Coincidência? Não!
  2. Segunda grande queda: O dia 22 de abril marcou o fim do lock-up de venda do lote remanescente do IPO, ou seja, apenas a partir nesta data os acionistas majoritários que entraram na oferta poderiam vender suas ações. O mercado antecipou essa reação. A menor cotação da história da BM&F foi dois dias depois. Coincidência? Com certeza não!
  3. O guidance do volume de negociação previsto pela BM&F foi exageradamenta alto e não se consolidou no primeiro trimestre (ou seja, os objetivos de crescimento da BM&F não foram atingidos).
  4. Grandes bancos já estão expostos ao risco do mercado de renda variável. Investir na Bovespa ou BM&F seria duplicar este risco.

Tudo isso explica a grande queda nas ações da BM&F?
Eu ainda acho que não! Uma ação com bons fundamentos e operando próxima ou abaixo de seu preço justo não teria tamanha queda. Vide exemplo das bluechips (Petrobrás, Vale, Gerdau) que cairam menos de 20%.

Explicação Fundamentalista

Para quem gosta de investir o dinheiro ao invés de apostar, bastava uma rápida análise nos número da empresa, mesmo que superficial, para descobrir que a ação já estreava na bolsa com valor estupidamente acima do justo. Parte disso se deve a lei da oferta e da procura, pois cada investidor (pessoa física) só conseguiu 91 ações no rateio do IPO e muitos queriam mais.

Vamos calcular o múltiplo P/L, o principal indicador da análise fundamentalista (exatamente o mesmo cálculo que fiz antes de decidir sobre a compra de BM&F):

Cálculo do P/L

– Lucro Líquido projetado de 2007: R$ 296.000.000
– Numero de ações: 901.877.292
– Preço por ação: R$ 25,00
– Lucro líquido por ação: 0,3285
– P/L: 76x

Eu, particularmente, tenho uma carteira com P/L próximo de 14x. Mas seria injusto comparar uma empresa de crescimento alto com uma carteira multi-setorial. Podemos compará-la com os múltiplos da BM&F dos Estados Unidos, a famosa Nymex. Pelo site da Business Week vemos que o P/L atual é 39x.

A grosso modo, a BM&F estaria quase 2x mais cara que a Nymex! Um investidor puramente fundamentalista não compraria uma ação nessa situação!

Mas eu também errei!

Eu, investidor de longo prazo fundamentalista, analisei a empresa antes de reservar meu lote no IPO e resolvi entrar (primeiro erro). Vendi logo na estréia a R$ 25,59, embolsando um lucro de 27,9% (a máxima chegou a 26, ou seja, vendi muito bem).

Apesar de avisar algumas pessoas que a ação estava cara, contrariei todos meus princípios e resolvi comprar 1 lote a R$ 22,80 pouco depois do IPO. Não sei se foi ganância ou cegueira causada pelo mercado. Afinal, eu deveria estar enganado! Todos animados e acreditando no papel, porque não? (Segundo erro).

O que podemos aprender com isso?

  1. Acredite em você, não no mercado. Trace uma estratégia para sua carteira e siga a risca, sem se preocupar com o que o comentário geral. No curto prazo, o mercado é imprevisível!
  2. Nunca compre uma ação na alta, pois a euforia do mercado costuma elevar os preços acima do valor justo. O investidor de sucesso costuma comprar ações sub-precificadas, normalmente na baixa. Assim faz Warren Buffett na Berkshire. Assim está fazendo a GP Investimentos aqui no Brasil, ambas atuam bastante na área de Private Equity (a GP é a maior da América Latina neste mercado).
  3. Antes de comprar, analise a empresa, não compre as cegas! Pretendemos fazer um guia básico de como interpretar um relatório trimestral ou anual, quais números são importantes, quais indicadores calcular.

Apenas para ilustrar, isso já aconteceu no passado e as perdas foram muito maiores. Na última edição do livro The Intelligent Investor (o mais famoso livro fundamentalista) é citado o exemplo do IPO da VA Linux, que estreou na bolsa com pico de alta quase 700%. A ação chegou a valer US$ 320,00 no primeiro pregão. Passada a euforia, o preço justo apareceu e a ação foi precificada abaixo de US$ 5,00 (Uma perda de 98% do capital para quem comprou no topo). Hoje em dia são cotadas a míseros US$ 1,68 (LNUX).

Em breve teremos o IPO da Visanet do Brasil. Iremos analisar a Visanet do Brasil para compará-la com a Redecard (Brasil), Amex, Mastercard e Visa (Estados Unidos).

A nossa maior ambição ao fazer este blog é ajudar os jovens investidores a começarem a investir com consciência. No dia-a-dia e na internet vejo muitas histórias reais de pessoas que começaram a apostar em ações, sem ao menos gastar um tempo para estudar e entender o mercado.

Obs: Não cheguei a analisar os papéis da Bovespa e BM&F no presente, estou mais focado em descobrir small caps com grande potencial. Estima-se uma redução da ordem de 20% nas despesas (conhecida no mercado como economia de “sinergia” na fusão de duas empresas). O sêlo de Investment Grade concedido pela Standard & Poors vai aumentar os lucro no longo prazo. Parte disso já está sendo precificado novamente e a BM&F voltou a casa dos R$ 18,00.